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Roberta Bazilli: tradição, conhecimento e inovação na valorização dos cafés especiais

Publicado em 29/07/2026 | Por Redação Guia da Nossa Cidade
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À frente do Café Bazilli, produtora, mestre de torra e empreendedora transforma o café cultivado em Caconde em experiência, conhecimento e legado familiar.

O café faz parte da história da família Bazilli há seis gerações. Mas, para Roberta Bazilli, preservar uma tradição não significa simplesmente repetir o que sempre foi feito. Significa estudar, inovar, buscar qualidade e encontrar novas formas de aproximar as pessoas da origem e das histórias que existem por trás de cada xícara.

Fundado em 2006, o Café Bazilli nasceu com a proposta de valorizar o café produzido no interior paulista em todas as suas etapas, da lavoura à torra. Ao longo dos anos, Roberta investiu em formação técnica, análise sensorial, competições, turismo rural e no desenvolvimento de novos produtos, consolidando seu trabalho como produtora, mestre de torra, avaliadora e empreendedora.

Nesta entrevista ao Guia da Nossa Cidade, ela fala sobre os desafios enfrentados no setor cafeeiro, o papel das mulheres, a importância da origem, o preço justo do café especial e os próximos passos de uma história que já começa a ser continuada por seu filho, Theo.


Guia da Nossa Cidade: Olhando para sua trajetória, qual você acredita que tem sido o seu papel na valorização dos cafés especiais produzidos no interior paulista?

Roberta Bazilli: Acredito que meu papel tem sido mostrar que o interior paulista tem capacidade de produzir cafés especiais de altíssimo nível, com identidade, qualidade e muita história.

Desde que fundei o Café Bazilli, em 2006, tenho buscado valorizar cada etapa do processo, da produção à torra, sempre com respeito ao consumidor e ao potencial da nossa região. Ao longo dessa caminhada, investi em conhecimento, especialização e inovação para transformar o café em uma experiência, aproximando as pessoas da origem do produto e do trabalho que existe por trás de cada xícara.

Também acredito que compartilhar conhecimento faz parte dessa missão. Por meio de cursos, palestras e da abertura da nossa propriedade ao público, procuro mostrar que o café especial vai muito além da bebida. Ele representa cultura, sustentabilidade, turismo, empreendedorismo e desenvolvimento para o interior paulista.

Outro ponto importante é inspirar novas gerações. Ver meu filho Theo participando desse universo desde pequeno e criando sua própria marca reforça a ideia de que a tradição pode caminhar ao lado da inovação, garantindo a continuidade da cafeicultura com novos olhares.

Se hoje o nosso trabalho ajuda os consumidores a reconhecerem o valor dos cafés especiais produzidos no interior de São Paulo e incentiva outros produtores a investirem em qualidade, sinto que estamos cumprindo um papel importante na valorização da nossa região e da cafeicultura brasileira.


Guia da Nossa Cidade: Em um mercado historicamente muito técnico e competitivo, quais barreiras você precisou superar para conquistar espaço e reconhecimento como produtora, avaliadora e empreendedora do café?

Roberta Bazilli: Ao longo da minha trajetória, enfrentei diversas barreiras em um mercado historicamente técnico, competitivo e, muitas vezes, ainda muito fechado, especialmente para as mulheres.

No início, conquistar credibilidade como produtora e mestre de torra exigiu muita dedicação, estudo e persistência. Foi preciso provar, na prática, a qualidade do nosso trabalho e a seriedade do nosso compromisso com o café especial.

Também enfrentei obstáculos relacionados ao acesso à informação e à valorização do produto. Por isso, sempre acreditei que compartilhar conhecimento e aproximar o consumidor da origem do café seria fundamental. Abrir a propriedade, promover experiências e educar o público foram estratégias importantes para construir reconhecimento e fortalecer a marca.


Guia da Nossa Cidade: Quais foram os momentos mais decisivos da sua trajetória, aqueles que mudaram a forma como você enxergava o café, o negócio e o seu próprio posicionamento no setor?

Roberta Bazilli: O primeiro grande momento foi decidir torrar os meus próprios cafés. Até então, eu entendia o café principalmente como uma excelente matéria-prima. Quando comecei a estudar torra de forma profunda, percebi que o produtor poderia assumir o protagonismo da qualidade até a xícara. Isso mudou minha visão de negócio: deixamos de vender apenas café e passamos a entregar uma experiência construída por nós.

Outro marco foi investir em formação técnica, certificações e análise sensorial. Quanto mais estudava, mais entendia que produzir café especial exige conhecimento, método e consistência. Passei a tomar decisões baseadas em qualidade, e não apenas em tradição.

A participação em campeonatos de torra também foi transformadora. Conquistar reconhecimento como uma das melhores mestres de torra do Brasil e disputar competições internacionais mostrou que o trabalho desenvolvido dentro da nossa propriedade poderia ser comparado ao dos melhores profissionais. Isso fortaleceu minha confiança e consolidou meu posicionamento como especialista em torra e cafés especiais.

Outro momento decisivo foi perceber que uma marca precisa contar uma história. O Café Bazilli deixou de representar apenas um produto para representar nossa família, nossa origem e nossa forma de produzir.

Depois veio o Dino Coffee, liderado pelo Theo, mostrando que tradição e inovação podem caminhar juntas. Ali entendi que marcas fortes despertam conexão emocional muito antes da primeira xícara.

Também houve uma mudança importante quando comecei a abrir as portas da propriedade para receber visitantes. Ver as pessoas conhecerem todo o processo, da lavoura à torra, reforçou que o consumidor busca autenticidade. Hoje, não vendo apenas café: compartilho conhecimento, experiências e a história de seis gerações dedicadas à cafeicultura.

Talvez a maior transformação tenha sido entender que meu trabalho vai além de produzir um excelente café. Hoje me vejo como alguém que comunica, ensina, inspira e agrega valor ao café brasileiro. Meu propósito passou a ser mostrar que, por trás de cada xícara, existem ciência, dedicação, pessoas e uma história que merece ser contada.


Guia da Nossa Cidade: O que ainda é pouco compreendido pelo consumidor quando se fala em café especial, origem, torra, qualidade e preço justo?

Roberta Bazilli: Acredito que ainda existe uma grande lacuna entre o que acontece na propriedade e o que o consumidor enxerga na xícara.

Muitas pessoas ainda associam café especial apenas ao sabor, quando, na verdade, ele é resultado de uma cadeia inteira de decisões: escolha da variedade, manejo da lavoura, colheita seletiva, processamento, secagem, descanso, classificação, torra e preparo. Cada etapa influencia diretamente a qualidade final.

Outro ponto pouco compreendido é a importância da origem. Assim como acontece com o vinho, o lugar onde o café é cultivado faz toda a diferença. Solo, altitude, clima, terroir e forma de produção conferem identidade ao café. Quando conhecemos a origem, deixamos de consumir apenas uma bebida e passamos a valorizar uma história.

A torra também é frequentemente mal interpretada. Muitas pessoas acreditam que uma torra mais escura significa um café mais forte ou de melhor qualidade. Na verdade, a torra deve revelar as características naturais do grão, e não mascará-las. O trabalho do mestre de torra é encontrar o equilíbrio necessário para expressar o potencial de cada café.

Talvez a maior incompreensão esteja no preço. Um café especial não custa mais porque é um produto de luxo. Ele custa mais porque exige muito mais trabalho, conhecimento, tempo e cuidado em cada etapa da produção.

Existe um grande investimento em qualidade, pessoas, sustentabilidade e rastreabilidade. Quando o consumidor paga um preço justo, não está comprando apenas café. Está valorizando o trabalho de toda uma cadeia produtiva e contribuindo para que os produtores continuem investindo em excelência.

Meu maior objetivo é aproximar o consumidor dessa realidade. Quanto mais ele entende a história por trás da xícara, mais percebe que café especial não é apenas uma bebida melhor, mas também uma forma mais consciente e justa de consumir.


Guia da Nossa Cidade: Na sua visão, qual é o maior desafio para aproximar o público comum do universo dos cafés especiais sem tornar o assunto distante ou elitizado?

Roberta Bazilli: Muitas vezes, o universo dos cafés especiais é apresentado com tantos termos técnicos, notas sensoriais, variedades, processos, curvas de torra e pontuações que quem está começando sente que precisa estudar para poder apreciar um café. Isso cria uma barreira desnecessária.

O café especial precisa deixar de parecer um produto apenas para especialistas e passar a ser visto como algo que qualquer pessoa pode apreciar. Assim como ninguém precisa ser sommelier para gostar de vinho ou chef para apreciar uma boa refeição, ninguém precisa conhecer todos os termos do café para perceber que uma bebida é gostosa.

Também acredito que contar histórias aproxima muito mais do que apresentar apenas características técnicas. Saber quem produziu o café, como aquela família trabalha, por que determinada torra foi escolhida ou o que faz uma região ser especial cria uma conexão emocional que vai muito além da xícara.

Percebo isso diariamente no sítio, quando recebemos visitantes. Eles chegam com uma percepção e saem com uma visão completamente diferente sobre o café.


Guia da Nossa Cidade: Quais mudanças você percebe no mercado de cafés especiais nos últimos anos e como o Café Bazilli precisou se adaptar a esse novo cenário?

Roberta Bazilli: Nos últimos anos, percebi uma mudança muito positiva no mercado de cafés especiais. O consumidor deixou de buscar apenas um café “mais forte” e passou a querer entender a origem, a forma de produção, quem está por trás daquele produto e qual história ele carrega.

Ao mesmo tempo, os canais digitais aproximaram produtores e consumidores, permitindo que pequenas torrefações e marcas autorais conquistassem espaço em todo o Brasil.

No Café Bazilli, entendemos que não bastava vender um café de qualidade. Precisávamos oferecer uma experiência completa. Investimos em torra de precisão, fortalecemos nossa identidade de marca, desenvolvemos embalagens que contam nossa história, ampliamos a presença no turismo rural com visitas à fazenda e criamos projetos inovadores, como o Dino Coffee, comandado pelo Theo, que aproxima o público mais jovem do universo dos cafés especiais.

Também expandimos nosso portfólio com produtos que levam o café para diferentes momentos de consumo. Desenvolvemos chocolates, cachaça e licor à base de café e, mais recentemente, lançamos nosso cold brew, mostrando que o café especial pode ser apreciado de diversas formas e alcançar novos públicos.

Hoje, o Café Bazilli é muito mais do que uma torrefação de cafés especiais. Somos uma marca que produz experiências, compartilha conhecimento por meio de cursos, recebe visitantes no sítio e busca inovar continuamente, sempre valorizando nossa história e a origem do nosso café.

Acredito que o futuro pertence às marcas que conseguem unir excelência no produto, propósito, transparência e conexão genuína com as pessoas. É exatamente esse caminho que buscamos seguir.


Guia da Nossa Cidade: Quais desafios ainda existem para que pequenos produtores e marcas familiares consigam competir com empresas maiores e manter sua identidade?

Roberta Bazilli: Na minha visão, pequenos produtores e marcas familiares não competem diretamente com as grandes empresas. As grandes indústrias trabalham com escala, volume e padronização. Nós oferecemos algo diferente: origem, identidade, qualidade, rastreabilidade e uma história verdadeira.

Nosso desafio é encontrar consumidores que valorizem esse diferencial e estejam dispostos a consumir um produto que carrega o trabalho de uma família, o cuidado em cada etapa da produção e uma relação muito mais próxima com quem produz.

O maior desafio é crescer sem perder essa essência. É manter a qualidade, a autenticidade e os valores que construíram a marca, mesmo diante de um mercado cada vez mais competitivo.

Quando conseguimos fazer isso, passamos a ocupar um lugar único, no qual o que realmente importa é o valor percebido, e não apenas o preço.


Guia da Nossa Cidade: Como você vê o papel da mulher no setor cafeeiro hoje, especialmente em posições de decisão, qualidade, gestão e representação da marca?

Roberta Bazilli: Na minha visão, a mulher trouxe uma nova forma de fazer café: mais colaborativa, atenta aos detalhes, inovadora e focada em qualidade. Isso não significa que faça melhor do que os homens, mas sua presença fortaleceu o setor com novas competências e estilos de liderança.

Hoje vemos mulheres liderando fazendas, conquistando títulos em campeonatos de torra e barismo, atuando como avaliadoras, pesquisadoras, exportadoras e empreendedoras, além de representarem suas marcas no Brasil e no exterior.

Essa presença fortalece toda a cafeicultura, inspira novas gerações e mostra que talento, competência e paixão pelo café não têm gênero.


Guia da Nossa Cidade: Que avanços ainda precisam acontecer na região para fortalecer o café como produto, experiência turística e identidade territorial?

Roberta Bazilli: Acredito que o principal avanço de que ainda precisamos é fortalecer a união entre todos os envolvidos na cafeicultura.

Também é preciso ter humildade para aprender. O universo dos cafés especiais é extremamente complexo e está em constante evolução. Buscar conhecimento, qualificação e troca de experiências é essencial para produzir cafés cada vez melhores e comunicar esse valor ao consumidor.

Vejo muitas pessoas querendo atuar nesse mercado sem buscar o conhecimento necessário. Isso pode gerar informações equivocadas, que confundem o consumidor e enfraquecem o setor.

Não há problema em estar começando. Todos nós começamos um dia. O importante é ter curiosidade, estudar, ouvir quem tem experiência e buscar capacitação contínua.

Quanto mais conhecimento compartilharmos, mais forte será nossa região e maior será o reconhecimento dos nossos cafés.

Quando unimos qualificação, respeito pelo trabalho de quem produz e confiança no potencial da nossa origem, conseguimos transformar o café em muito mais do que um produto. Ele se torna uma experiência, uma identidade territorial e um motivo de orgulho para todos nós.


Guia da Nossa Cidade: Quando você pensa no futuro do Café Bazilli e do café da região, quais são os próximos desafios que mais a motivam?

Roberta Bazilli: Quero que o Café Bazilli seja cada vez mais reconhecido pela qualidade, pela inovação e pela forma como comunica a história do café. O desafio é continuar evoluindo sem perder nossa essência.

Também tenho o sonho de fortalecer o turismo do café, mostrando que uma xícara carrega muito mais do que uma bebida. Ela carrega pessoas, tradição e identidade. Quero que quem visite nossa região viva essa experiência e leve consigo uma nova visão sobre o café especial.

Outro desafio que me motiva muito é ver meu filho Theo representando a sexta geração da nossa família na cafeicultura. Isso me faz acreditar que estamos construindo um legado.

Costumo brincar que ele não é meu herdeiro. Ele já é meu sucessor!


Conheça o Café Bazilli

A história do Café Bazilli mostra como tradição, conhecimento e inovação podem caminhar juntos. Da produção à torra, dos novos produtos às experiências oferecidas na propriedade, o trabalho da família ajuda a valorizar o café de Caconde e a fortalecer a identidade de toda a região.

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