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Maestro Toni: da inclusão à criação de experiências musicais em São João da Boa Vista

Publicado em 10/09/2026 | Por Redação Guia da Nossa Cidade
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Maestro Toni: da inclusão à criação de novas experiências musicais em São João da Boa Vista

Músico, educador, regente, arranjador e produtor, Carlos Henrique Toni construiu uma trajetória que nasceu da formação musical e da inclusão e hoje avança também pela criação de espetáculos, ópera e novos projetos autorais.

A trajetória do Maestro Carlos Henrique Toni da Silva, o Maestro Toni, ajuda a contar uma parte da história musical recente de São João da Boa Vista. São-joanense, ele construiu sua atuação a partir da educação, passou pela formação de grupos musicais e encontrou na inclusão um dos eixos mais importantes de seu trabalho. Com o tempo, porém, essa história ganhou novas dimensões: direção artística, criação de arranjos, experiências audiovisuais, regência de ópera e, agora, a composição de uma obra sinfônica própria.

Mais do que uma sequência de projetos, é um percurso marcado pela tentativa de ampliar possibilidades: de quem pode aprender música, de quem pode ocupar um palco e também das formas como o público pode vivenciar um concerto.

Da educação musical à inclusão

A atuação de Toni como educador começou ainda nos anos 2000. Entre 2005 e 2006, participou voluntariamente do projeto Escola da Família. Em 2007 e 2008, trabalhou na Prefeitura de São João da Boa Vista como professor de violão e maestro do projeto Arcos e Cordas.

Nos anos seguintes, sua atividade ultrapassou os limites do município. Toni participou da formação de orquestras de viola caipira em Caconde e Tapiratiba e continuou ampliando sua experiência com música popular, jazz, arranjos e regência.

Um ponto decisivo dessa caminhada surgiu no trabalho com pessoas com deficiência. Entre 2012 e 2020, atuou como educador musical na APAE de Aguaí, onde aprofundou experiências de ensino que consideravam diferentes maneiras de aprender, perceber e executar música.

Foi nesse contexto que desenvolveu o Maestro Lumen, proposta voltada ao ensino musical na educação especial, e acumulou experiências que contribuiriam para o surgimento, em 2017, da Orquestra Brasileira Inclusiva (OBI), em São João da Boa Vista.

Quando a inclusão sobe ao palco

A Orquestra Brasileira Inclusiva nasceu da aproximação com famílias e pessoas envolvidas com a causa da inclusão. Desde o início, porém, a proposta foi além de oferecer uma atividade musical. O objetivo era fazer com que os participantes ocupassem efetivamente o lugar de músicos e solistas.

Ao longo de sua trajetória, a OBI reuniu jovens e adultos com diferentes deficiências, entre elas Síndrome de Down, Transtorno do Espectro Autista e deficiência intelectual. Os arranjos são construídos respeitando características individuais e criando espaço para que cada músico encontre sua forma de participar da execução coletiva.

Essa lógica muda também a relação do público com o espetáculo. Em vez de apresentar a inclusão como um tema paralelo à música, a orquestra faz com que ela aconteça diante da plateia — no ensaio, no arranjo, na performance e na presença de cada integrante sobre o palco.

A OBI passou, assim, a ocupar diferentes espaços culturais. Em 2021, participou do projeto Som & Movimento, com o “Concerto 21”. Em novembro de 2022, subiu ao palco do Theatro Municipal de São João da Boa Vista para a gravação do álbum ao vivo “Real Juntos”, em parceria com o guitarrista Michel Leme, reunindo composições instrumentais autorais com referências no jazz.

Naquele momento, Toni destacou a importância de registrar musicalmente o trabalho desenvolvido pelo grupo:

“Será o primeiro álbum de música instrumental e de performance que será realizado com a galera inclusiva.”

Em 2024, a Orquestra também apresentou o “Concerto Natural” no Instituto Moreira Salles, em Poços de Caldas, levando para fora de São João da Boa Vista uma experiência artística construída a partir da cidade.

Um concerto que começou antes de entrar no teatro

Também em 2024, durante a 47ª Semana Guiomar Novaes, a Orquestra Brasileira Inclusiva participou de uma experiência que marcou uma mudança na maneira como Toni passou a pensar seus espetáculos.

O projeto foi concebido como um concerto audiovisual, em uma proposta que ele chamou de “Uma Noite de Cinema”. Em vez de limitar a apresentação ao palco, Toni explorou diferentes ambientes e a própria arquitetura do Theatro Municipal de São João da Boa Vista.

O espetáculo começou do lado de fora, passou pelo saguão e seguiu para o interior do teatro. A música foi associada à construção de cenas e à movimentação do público pelo espaço, aproximando a experiência de uma narrativa cinematográfica realizada ao vivo.

“É como se a gente estivesse dentro do cinema ao vivo”, explica Toni ao recordar a proposta.

Para o maestro, a apresentação representou a oportunidade de experimentar outra relação entre música, espaço e público. A inclusão continuava presente, mas inserida em uma concepção artística mais ampla: não apenas executar um repertório, mas criar uma experiência.

O desafio de reger Carmen

A experiência de 2024 também abriu caminho para outro momento significativo de sua trajetória. Em 2025, Toni recebeu o convite para participar da montagem de “Carmen”, de Georges Bizet, apresentada no Theatro Municipal durante a 48ª Semana Guiomar Novaes, no ano em que a célebre ópera completava 150 anos.

Para Toni, o convite trouxe satisfação e uma responsabilidade de outra dimensão. Acostumado a transitar entre música popular, jazz, projetos autorais e educação musical, ele passou a lidar diretamente com uma das obras mais conhecidas do repertório operístico mundial.

Além da regência, assumiu o desafio de trabalhar os arranjos e a adaptação musical da obra para uma formação reduzida de dezeseis músicos. Era necessário preservar a força e a identidade musical de “Carmen” dentro de uma estrutura muito menor do que aquela normalmente associada a uma ópera desse porte.

“Para mim, como maestro, imagina uma satisfação. E o peso da responsabilidade também”, recorda.

O episódio ajuda a revelar outra dimensão de seu trabalho. Toni não atua apenas diante dos músicos com a batuta: há uma etapa anterior de construção, escolha, adaptação e organização da linguagem musical para que o espetáculo se torne possível.

Entre MPB, jazz, rock, ópera e projetos autorais

Essa diversidade é uma característica recorrente de sua trajetória. Como instrumentista, regente, educador, arranjador e produtor, Toni transita por diferentes repertórios e formatos.

Em outubro de 2025, por exemplo, dividiu com Pedro Zanetti o espetáculo “Certas Versões”, no Theatro Municipal de São João da Boa Vista, com releituras de canções da Música Popular Brasileira. Outros projetos de sua atuação recente incluem a Orquestra Brasileira Inclusiva, Lirou Big Band, Piano Bar e Supernova Rock.

Essa circulação entre linguagens ajuda a entender seu trabalho menos como uma especialização em um único gênero e mais como uma busca permanente por possibilidades musicais. Da viola caipira ao jazz, da música inclusiva à ópera, cada experiência acaba alimentando a seguinte.

O próximo passo: uma sinfonia

Agora, Toni trabalha em um novo desafio: a produção de uma sinfonia autoral.

O projeto ainda está em desenvolvimento e deverá abrir uma nova etapa de sua produção artística. A intenção é concluir a obra, disponibilizá-la ao público e buscar apoios e patrocínios que possam contribuir para sua realização.

A sinfonia aparece como consequência natural de um percurso que, pouco a pouco, ampliou o papel de Toni dentro da música. O professor tornou-se regente; o regente passou a criar arranjos; o trabalho com inclusão levou à criação de novos formatos de espetáculo; e essas experiências agora encontram continuidade na composição.

Uma trajetória construída a partir de São João da Boa Vista

Embora seu trabalho tenha criado conexões com cidades como Aguaí, Caconde, Tapiratiba e Poços de Caldas, São João da Boa Vista permanece como um ponto central dessa história.

É na cidade que nasceu a Orquestra Brasileira Inclusiva, que muitos dos projetos ganharam palco e que experiências como o concerto audiovisual e a montagem de “Carmen” encontraram espaço dentro de um dos eventos culturais mais tradicionais do município, a Semana Guiomar Novaes.

Contar a trajetória do Maestro Toni, portanto, não é apenas contar a história de um músico. É observar como a cultura de uma cidade também se constrói a partir de artistas que experimentam, formam pessoas, estabelecem conexões e criam novas possibilidades a partir do lugar onde vivem.

Se existe um elemento que atravessa todas essas fases, talvez seja justamente esse: a ideia de que a música não precisa permanecer dentro de limites previamente estabelecidos.

Ela pode incluir quem antes não encontrava espaço. Pode começar do lado de fora do teatro. Pode transformar um edifício em parte do espetáculo. Pode condensar uma ópera para seis músicos. E pode, depois de tudo isso, ganhar a dimensão de uma sinfonia ainda por ser apresentada.

É nesse movimento entre educação, inclusão, criação e experimentação que o Maestro Toni segue ajudando a ampliar a vida cultural de São João da Boa Vista.

Informações sobre Maestro Carlos Henrique Toni da Silva

São João da Boa Vista